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domingo, 23 de outubro de 2011

Aula de sociologia para 3º ano - Analfabeto Político

Por que participar da política?

Nove entre dez jovens consideram a política uma atividade para espertalhões que ganham uma fortuna para enganar o povo. Eles não deixam de ter alguma razão. De fato, pode-se contar nos dedos os políticos que se devotam realmente ao serviço do povo.

A reação normal de quem tem essa visão negativa da política é ficar fora dela. No máximo comparecer para votar, uma vez que o voto é obrigatório. Apertou o botão da urna eletrônica, tchau! Sair voando sem saber até o nome do candidato em quem votou.

Esta atitude é a que mais interessa aos malandros da política, pois o desinteresse leva à ignorância política e esta é um prato feito para quem deseja praticar falcatruas com o mandato popular.

Nestas alturas, sei que o jovem leitor está me questionando: “OK. Você diz que eu devo me interessar pela política. Mas o que eu perco não tendo o menor interesse por ela?”. Boa pergunta, que merece uma resposta por partes: quem são os políticos; o que fazem; como os safados prejudicam os cidadãos; como se pode evitar isso.

Quem são os políticos?

A palavra político, na linguagem comum das pessoas, designa os homens e as mulheres que ocupam cargos no Estado: vereadores, deputados, senadores, secretários de estado, ministros, governadores e Presidente da República. Essas pessoas - são milhares delas em todo o Brasil - têm o poder de influenciar na atuação dos órgãos do estado brasileiro. Participam da elaboração das leis; da distribuição do dinheiro arrecadado com os impostos; da gestão das empresas do Estado; da fiscalização do funcionamento das repartições públicas que prestam serviço à população (SUS, hospitais públicos, delegacias de polícia etc.).

Suspenda agora a leitura do texto e veja se consegue identificar uma única atividade da sua vida inteiramente fora do âmbito da política.

Não me venha com o argumento de que o Estado não interfere na sua fé religiosa, nas suas leituras, no seu pensamento. Interfere e muito. O Estado tem uma delegacia para fiscalizar os cultos religiosos, e outra para manter a ordem política e social - esses órgãos acompanham a atividade de padres, freiras, pastores, pais e mães de santo, militantes de pastorais etc. E abrem processos contra aqueles cuja pregação afeta a ordem estabelecida. Além disso, o Estado censura livros; peças de teatro; filmes. E fixa, através de suas políticas econômicas, o preço desses produtos. Quantas vezes você quis ler um livro, assistir a uma peça teatral e não pôde por causa do preço?

Finalmente, não é exato que você tenha uma liberdade absoluta de pensar. Você pensa com a informação que chega ao seu cérebro. Ora, é o Estado que controla - às vezes abertamente, às vezes indiretamente - toda a informação que chega até você.

Estar junto para entender

Não tenha, pois, nenhuma dúvida: você perde muito, direta ou indiretamente, quando o Estado está nas mãos de pessoas incompetentes ou desonestas, pois, de algum modo, você está sendo prejudicado.

Daí a necessidade de interessar-se pela política, de aprender o suficiente para entender como ela funciona e de tomar parte efetiva na escolha dos governantes.

Não é fácil atender a essa necessidade. A política é uma atividade bem complicada e quem participa dela sem o conhecimento adequado corre sério risco de ser enganado. Por isso o primeiro passo para participar consiste em entender seu funcionamento.

Ninguém consegue entender de política sozinho. Não adianta ler jornais e acompanhar os noticiários e comentários da rádio ou televisão. São todos enviezados. O jeito é formar um grupo para ampliar as fontes de informação e para dispor de opiniões diversas a respeito do significado das informações recebidas.

O grupo não irá muito além das pernas se não se dedicar à leitura de livros teóricos que explicam o funcionamento da sociedade e, portanto, dos partidos políticos. É através da leitura desses livros que você aprenderá a distinguir os políticos fisiológicos (que buscam apenas satisfazer seus apetites por dinheiro, prestígio ou poder) e os políticos ideológicos (os que fazem política por convicção). Conhecendo as ideologias, você pode optar pela que mais se aproxima dos valores que considera importantes. Isso lhe fornecerá um critério para participar inteligentemente do processo político.

O analfabeto político(Bertolt Brecht)

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo
que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.


Que sentimentos este texto do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht desperta em nós?
Assista o vídeo produzido pelo Mundo Jovem: Analfabeto político
Questões para Debate

1 - O que você pensa dos políticos e por que pensa assim?
2 - Você conhece políticos que podem ser exemplos positivos?
3 - De que forma, entre nós, podemos estudar e debater sobre política?
Fonte: Jornal Mundo Jovem

Aula de sociologia para 3º ano - Relativismo II

Relativismo Moral (2)

11. Direitos humanos universais I

• A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem raízes no século XVII. Em 1776, a Declaração de Independência dos Estados Unidos estabelece que os governos, como Locke defendia, se fundamentam no consentimento dos cidadãos, sendo obrigados a proteger os seus direitos.
• Ficou estabelecido que todos os homens são iguais em direitos, entre os quais o direito à vida, à liberdade e à procura de felicidade.
12. Direitos humanos universais II

Em 1789, com a Revolução Francesa, é aprovada uma Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, onde são consagrados os seguintes direitos fundamentais:
- Propriedade
- Segurança
- Resistência à opressão
- Liberdade religiosa
- Liberdade de expressão
- Participação política
13. Direitos humanos universais

• Em 1948, após a 2ª Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
• Esta Declaração tem início com os seguintes dois artigos:
Artigo 1
Todos os seres humanos nasceram livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem relacionar-se uns com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
• Segundo a Declaração, ter direitos depende de ser uma pessoa e não de pertencer a esta ou àquela cultura.
14. O conflito

• A Declaração dos Direitos Humanos baseia-se na ideia de que os seres humanos têm direitos apenas por serem pessoas.
• Os relativistas defendem que a ideia de direitos humanos não passa uma ilusão, um produto da nossa cultura que não se aplica fora dela.
• Será que têm razão, que a existência de valores universais é um mito? O nosso objectivo é dar uma resposta a este problema
15. A posição relativista (de novo) I

• O relativismo moral defende que o bem e o mal são convenções sociais, próprias de cada cultura, ou seja, que existem regras e normas que valem apenas em cada sociedade.
• No relativismo moral não há verdades absolutas, pois tudo é relativo ao ponto de vista de cada sociedade. As verdades maioria são relativas porque apenas reflectem o que a maioria das pessoas aprova em cada sociedade.
16. A posição relativista (de novo) II

• Se o bem e o mal são apenas convenções sociais, que variam de cultura para cultura, então não existem verdades objectivas em moral, pois estas verdades são independentes de qualquer ponto de vista particular.
• Se numa sociedade o infanticídio for considerado um mal, isso não significa que o infanticídio seja em si mesmo errado; significa apenas que há nessa sociedade uma maioria de pessoas que o desaprova.
17. Um argumento a favor do relativismo moral

Argumento do juiz parcial
(1) Em ciência, quando há desacordos, os cientistas chegam a um consenso porque a verdade em ciência é objectiva.
(2) Em questões de ordem moral, como o aborto, o infanticídio, a eutanásia ou a pena de morte, não é possível chegar a um consenso sempre que há sempre desacordo. Não é possível ser imparcial quando diferentes culturas estão em confronto. Cada pessoa defenderá como correctas as normas da sociedade em que foi educada, e considerará errado o que lhe for oposto.
Portanto, os valores morais não são objectivos.
18. Análise: será este um bom argumento?

• A premissa 1 parece ser verdadeira. Acontecerá o mesmo com a premissa 2? A resposta é negativa.
• Esta premissa diz que uma pessoa educada numa determinada cultura defenderá sempre as normas dessa cultura contra todas as culturas que defenderem o inverso. Mas isto não tem de ser assim.
• Martin Luther King, por exemplo, foi educado numa sociedade racista. Mas defendia que o racismo é errado. Estaria, portanto, de acordo com qualquer outra sociedade que condenasse o racismo, mesmo que essa sociedade não fosse a sua.
• Este exemplo mostra que podemos avaliar as normas e valores de outras culturas sem cair numa defesa cega dos nossos próprios valores. De facto, King pensava que o racismo é errado objectivamente, isto é, que não se trata de uma questão de opinião ou ponto de vista. Quem pensasse o contrário estava errado.
19. Um argumento contra o relativismo.

Argumento da maioria preconceituosa
(1) O relativista moral defende que uma acção ser boa ou correcta significa apenas que essa acção é aprovada pela maioria das pessoas numa sociedade.
(2) O relativista pode ser acusado de a sua teoria levar ao conformismo.
(3) Por muito que alguém discorde da opinião da maioria das pessoas da sua sociedade, ou que esta opinião se baseie apenas em preconceitos, falta de informação e espírito crítico, temos de aceitar a opinião da maioria. É opinião da maioria que define o que é o bem.
(4) É o caso do racismo. Só o preconceito ou a falta de informação e sentido crítico é que podem levar uma sociedade a pensar que se justifica discriminar pessoas com base na cor da pele. Mas, se uma pessoa defender que é um bem tudo o que a sua sociedade aprovar, terá para ser coerente de considerar o racismo um bem se a sua sociedade aprovar o racismo.
Portanto, o relativismo moral obriga-nos a deixarmos de pensar pela nossa própria cabeça para seguir sempre a maioria (mesmo que a maioria não tenha razão). O que não faz sentido.


Fonte: http://filosofiavivapro.blogs.sapo.pt/

Aula de sociologia para 3º ano - Relativismo

Relativismo Moral (1)

Serão os valores morais universais? Ou dependerão do ponto de vista de cada sociedade?
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1. Os dados do problema

• Diferenças de padrões culturais
• Declaração dos Direitos Humanos Universais
2. Padrões de cultura

• Os padrões de cultura são modos de pensar e agir comuns aos membros de uma sociedade; incluem as tradições, valores e regras de comportamento moral em vigor nessa sociedade, a maneira de vestir, os hábitos e regras de higiene, etc.
• Sociedades diferentes possuem diferentes padrões de cultura.
• Os padrões cultura variam no espaço e no tempo. No espaço porque diferentes culturas situadas em diferentes regiões geográficas podem caracterizar-se por diferentes modos de vida e cultura. No tempo porque a mesma sociedade pode ao longo da história sofrer mudanças significativas nos seus padrões de cultura: certas tradições podem desaparecer e serem substituídas por outras, certos comportamentos que antes não eram aceites passam a ser considerados normais, etc.
3. Exemplo A

• Nem em todas as sociedades humanas os casamentos são monogâmicos, isto é, efectuados entre duas pessoas apenas.
• Em certas regiões do Tibete e do Nepal (países asiáticos), uma mulher podia casar com mais do que um marido.
• Em muitos países do Norte de África, entre outros, um homem pode casar com mais do que uma mulher.
4. Exemplo B

• O infanticídio é considerado nas nossas sociedades como profundamente errado, ou seja, como moralmente inaceitável.
• Os esquimós, tal como os antigos romanos e alguns gregos, aceitavam o infanticídio e, em certas circunstâncias, consideravam-no desejável.
5. Exemplo C

• Na Índia, quando o marido morria, a cerimónia de cremação do cadáver incluía a obrigação de a viúva se lhe juntar, terminando assim a sua vida.
• Em muitos países, sobretudo africanos, ainda se pratica a excisão nas jovens raparigas, uma operação geralmente efectuada por familiares.
6. Exemplo C

• Os antigos gregos cremavam os seus mortos em pilhas funerárias. Este tipo de cerimónia era uma forma de prestar uma última homenagem ao falecido, manifestando o respeito e apreço dos familiares.
• Os catalinos, uma tribo originária da Índia, tinham como tradição comer os cadáveres dos seus familiares como forma de lhes prestarem a última homenagem.
• Este hábito foi relatado por Heródoto, um historiador grego antigo, que sublinhou o efeito de extrema repugnância que as tradições fúnebres catalinas tiveram sobre os gregos, bem como o desagrado e repugnância expressos pelos catalinos ao tomarem conhecimento dos hábitos fúnebre gregos.
• Diferentes padrões de cultura tendem a provocar reacções de rejeição mútua entre membros de diferentes culturas. O modo extremamente negativo como os gregos avaliaram as tradições catalinas (e vice-versa) levou Heródoto a concluir que a moral depende do ponto de vista de cada sociedade.
7. Relativismo moral

• As tradições, hábitos e costumes que caracterizam as diferentes sociedades (formas de vestir, de cozinhar os alimentos, regras de conduta) mostram que os códigos morais variam em vários aspectos de sociedade para sociedade.
• Alguns antropólogos, filósofos e historiadores têm defendido que estas diferenças são a prova de que não existem verdades objectivas no domínio da moral, isto é, verdades capazes de irem além dos limites de cada cultura ou sociedade, verdades que sejam independentes do ponto de vista de cada sociedade particular.
• Esta ideia implica que nenhum código de conduta está realmente certo e nenhum está realmente errado. Tudo depende da maneira de sentir e pensar de cada sociedade: os valores morais seriam relativos.
8. Relativismo moral e padrões de cultura

• Os valores morais apenas teriam aplicação no interior das fronteiras de cada cultura, não tendo qualquer validade fora delas.
• Ao rejeitar o infanticídio, a poligamia ou a poliandria, por exemplo, a nossa cultura não estaria mais próxima da verdade que as sociedades onde estes padrões de cultura se aplicam.
• Todos os códigos morais seriam relativos à sua cultura de origem, não havendo verdades universais: os valores seriam apenas convenções sociais, variando do espaço e no tempo.
• Tal como conduzimos à esquerda ou à direita segundo as convenções de cada país, nada há na natureza do infanticídio, por exemplo, que obrigue a considerá-lo um mal. Tudo depende das convenções de cada sociedade.
9. Relativismo e direitos humanos

A ideia de que o bem e o mal depende do ponto de vista de cada sociedade está longe de ser consensual. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo, atribui a todos os seres humanos vários direitos de que estes devem beneficiar mesmo que a sociedade em que vivem não lhos reconheça.
10. Um caso português

Ontem houve uma notícia sobre a alegada discriminação de alunos ciganos numa escola em Barcelos. Edmundo Martinho, presidente da Comissão Nacional do Rendimento Social de Inserção, disse num colóquio que "não pode haver transigência no que respeita ao exercício de direitos das crianças e jovens. Aceitar que uma jovem mulher de 13 anos não vá à escola para não se encontrar com rapazes não é uma prática aceitável." Não o disse, mas estava a referir-se à comunidade cigana.
É pena que poucos falem com esta clareza sobre este assunto. Porque aquilo que se passa com as crianças ciganas nas escolas portuguesas é um autêntico crime, muitas vezes denunciado até dentro da comunidade. As meninas são afastadas da escola para não convive- rem com rapazes depois da 4.ª classe, e mesmo entre os rapazes são raros os que fazem mais do que o 10.º ano.
Isto é um atentado aos direitos humanos e devia levar-nos a levantar a voz. A denunciá-lo, como fazemos contra os hábitos islâmicos de discriminação das mulheres. Mas calamo-nos. Nem sequer fazemos referência à comunidade de que estamos a falar. E assim somos todos - jornalistas, assistentes sociais, técnicos de rendimento mínimo - cúmplices destas práticas. Tão perto de nós. Tão no meio de nós.
Diário de Notícias, Editorial de 19.03.09 (adaptado)
• Esta notícia levanta um problema filosófico importante:
- Será que os ciganos têm, ao proibir as suas filhas de frequentar a escola depois de uma certa idade, estão a violar um direito que as raparigas ciganas de facto têm (mesmo que não sejam capazes de o reconhecer)?
- Será que os direitos das raparigas ciganas são apenas aqueles que a sua sociedade lhes dá, e nada mais?
• Se respondermos “sim” à primeira pergunta, estamos a defender que os direitos que as pessoas têm ultrapassam as fronteiras da sua cultura. Estamos, ao que parece, a ir contra a perspectiva relativista.
• Se respondermos “sim” à segunda pergunta, estamos a pôr em causa a ideia de direitos universais.
Paulo Andrade Ruas
Cont. 1/2
Fonte: http://filosofiavivapro.blogs.sapo.pt/